Recordações Paula Kalil – Seis meses “sem” Kalil Abrão

Seis meses sem você meu pai…

Separei essas fotos pra falar de um outro lado seu, muitos aqui já leram sobre nossa relação de pai e filha, mas os amigos e certamente muita gente natural de catalão e que aqui viveu sabe que o Kalil Kalil Abrao empresário foi tbm muito importante e está ainda presente nas suas lembranças.

Você era um empreendedor nato, visionário, transformou o armazém do vô Nicolau em um supermercado, a distribuidora de bebidas em um grande atacadista, era o braço direito da vó Samira nas compras e controle do estoque, e dividia com meu avô a responsabilidade de receber as pessoas e cuidar dos funcionários.

Corajoso, partiu pro vôo solo e abriu a Iracy Mercearia, um misto de bomboniere, com revistaria e empório. Vendia de tudo quase, presentes, vinhos, cigarros, importados e comidas prontas. Também foi distribuidor de revistas e espalhou bancas de jornais por toda cidade.
Era obcecado por perfeição, detalhista, muito observador e estudioso.

Gostava de estar no meio do povo, exigia que todos fossem tratados com respeito e era muito carinhoso. Alucinado por bebês e crianças deu muitas balinhas e pazinhas de sorvete escondidas, era o moço dos álbuns de figurinhas, todo lançamento de álbum era uma festa.
Patrocinava eventos de cultura pra alavancar as vendas dos colecionáveis de literatura e de música.

Tinha filiais em Ipameri, Caldas Novas, Goiandira, vários pontos de revistas nas rodoviária e nas padarias. Meus pais trabalhavam juntos, iam pra São Paulo fazer compras pra loja. Minha mãe cuidava da distribuidora de revistas e meu pai da loja e dos outros pontos de venda.
Ele era o cara da arte, da promoção, das idéias que surpreendiam.

Montou a primeira armação de madeira que as crianças da cidade viram na vida em formato de casa e enchia ela de ovos de páscoa. Toda promoção era um sucesso enorme, vendia tudo. A gente quase morria de tanto trabalhar. Eu ajudava desde meninota, sabia fatiar presunto e queijo, servir sorvete na casquinha, embrulhar presentes e trabalhava no caixa. Mas era boa mesmo em sentar na escadinha e ler todas as revistas e gibis nas horas de folga.
Meu pai era incansável, adorava seu trabalho, ficava muito feliz fazendo as outras pessoas felizes.

Foram muitas semanas abrindo a loja até meia noite na semana anterior ao natal, na páscoa, no dia dos namorados, das mães, das crianças… e quando não tinha uma data especial ele criava uma. O trabalho era duro, ele mesmo criava as promoções e eventos, fazia a decoração e buscava mercadoria em Uberlândia.

A contagem das revistas era feita manualmente, entregava pessoalmente os jornais de madrugada pra dar tempo de despachar nos ônibus pras outras cidades. Domingo e sábado chegava o caminhão de revistas, tinha que descarregar e separar, embalar e enviar. Toda sexta recolhia as caixas de devolução, chegou a ter mais de vinte pontos de vendas, ele e minha mãe faziam a contagem e enviavam o relatório e as revistas pra São Paulo e Rio de Janeiro.

Ganhou muitos prêmios, vendia proporcionalmente mais que Uberlândia, tirava milhares de fotos pra ganhar bancas novas das editoras. Conheceu o sucesso, mas também o fracasso. Viveu o auge e infelizmente também a falência.

Era extraordinariamente comum, um apaixonado, não regulava sentimentos, era sempre exagerado e por isso faz muita muita falta.

Me desculpem por escrever tanto, mas me ajuda a lidar com a saudades e não deixar que seu legado seja esquecido.

Paula Kalil

 

 

 

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