Mário de Mendonça Netto – Uma vida de coragem, política e ideais

A história de Mário de Mendonça Netto é daquelas que não cabem apenas em datas e cargos. É uma trajetória marcada por coragem, resistência e, sobretudo, humanidade, daquelas que deixam marcas profundas não só na política, mas na vida das pessoas.

Nascido em 26 de abril de 1930, em Catalão, Mário Mendonça Netto carregava no sangue a vocação pública. Filho de João Netto de Campos, que governou a cidade e também ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Goiás, e de Maria Isabel de Mendonça Netto, cresceu em uma família numerosa, onde os laços eram tão fortes quanto os valores que o formaram. Ao lado dos irmãos: Marly Mendonça Netto, Álvaro Mendonça Netto, Yedda Mendonça Netto e Marlitt de Mendonça Netto Fayad, construiu desde cedo uma base de afeto, cumplicidade e união que o acompanharia por toda a vida.

Foi ainda menino que sua história começou a ganhar novos caminhos. Aos 12 anos, mudou-se para São Paulo com seus irmãos para estudar no tradicional Colégio Mackenzie. Ali, longe de casa, mas cercado pela família, viveu uma fase decisiva de formação, não apenas acadêmica, mas também política e humana.

Na capital paulista, conviveu com mentes inquietas e visionárias e, mais do que formação acadêmica, encontrou um ambiente efervescente de ideias e debates. Tornou-se amigo dos irmãos Fernando Henrique Cardoso e Gilda Cardoso, e, ainda adolescente, participou de um dos movimentos mais simbólicos da história do país: o Movimento O Petróleo é Nosso, idealizado pelo General Leônidas Cardoso. A luta pela soberania nacional naquele momento ajudou a moldar o jovem que, mais tarde, escolheria a política como caminho.

Formou-se em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma das mais respeitadas do país. Advogado por formação, agropecuarista por vocação, mas político por essência.

E foi na política que Mário de Mendonça Netto escreveu capítulos decisivos de sua vida. Eleito deputado estadual pelo PSP para a 3ª Legislatura (1955–1959), levou para o parlamento a firmeza de suas convicções. Também foi vereador em Catalão por duas legislaturas consecutivas (1963–1970), sempre guiado por um olhar atento às necessidades do povo.
Mas sua história não foi feita apenas de conquistas. Foi também marcada por dor, perseguição e resistência.

Com o advento do Golpe Militar de 1964, Mário, por ser contrário ao regime, foi condenado a oito anos de prisão. Como tantos outros brasileiros que ousaram defender a democracia, viu sua liberdade ameaçada. Fugiu para São Paulo, onde permaneceu por dois anos abrigado na casa do tio, vivendo dias de incerteza, mas nunca de rendição. Esse período sombrio não apagou sua essência. Pelo contrário: fortaleceu ainda mais o homem sereno, corajoso e profundamente humano que ele sempre foi.

Na vida pessoal, Mário também construiu uma história de afetos intensos. De seu primeiro casamento com Marly Gomes Pires nasceu Maísa Pires Netto, nome escolhido em homenagem à cantora Maysa Matarazzo, por quem tinha grande admiração. Em seu segundo casamento com Leuci Felício Netto, construiu uma família sólida, com os filhos Marisa, João Netto de Campos Neto e Maria Carolina. Para ele, não havia dúvida: seus filhos eram sua maior paixão.

E essa sensibilidade se refletia em tudo. Por onde passou, inclusive em sua atuação junto a Guardas Municipais, Mário não deixou apenas resultados profissionais, mas laços, respeito e admiração. Ele não foi apenas um homem público. Foi presença, foi exemplo, foi memória viva.

Já aos 79 anos, ao olhar para trás, dizia sentir saudades dos tempos em que viveu intensamente a política. Não como poder, mas como missão. Mesmo fragilizado pela doença, encontrava forças naquilo que sempre o sustentou: a família, o amor e a dignidade.

No dia 23 de setembro de 2009, Catalão se despediu de um de seus filhos mais ilustres. Mário de Mendonça Netto partiu vítima de insuficiência pulmonar, pouco antes de completar 80 anos. Mas sua história não se encerrou ali.

Ela permanece viva nas páginas da política local, nas lembranças de quem conviveu com ele e, principalmente, no legado de coragem diante da injustiça, de firmeza diante da opressão e de generosidade diante da vida.

Porque há homens que passam pela história. E há aqueles, como Mário de Mendonça Netto, que permanecem nela.

Mário nos deixou um legado construído com coragem, dignidade e amor à sua terra. Digo isso porque há histórias que terminam, mas há histórias como a de Mário, que continuam sendo contadas, sentidas e lembradas, geração após geração.

FOTO: Ao vovô Nhozico e Juvenília offerecem Mário e Yedda

FOTO: Arquivo pessoal

FOTO: Reprodução Internet

FOTO: Maysa Abrão 

TEXTO: Maysa Abrão