Memórias de Infância: O Túnel do Terror e a Praça da Estação (1951)

Por Haroldo Campos
 
 
Nesta fotografia de 1951, vemos, sobre os dormentes ao lado da linha férrea, os garotos Hélio Lucas, Ademir Aires, Marco Antônio Aires, Tharsis Victor e Haroldo Luiz. Eles estão à direita da Estação da RMV (Rede Mineira de Viação), onde os dormentes ficavam espalhados em pequenos montes na parte de cima da “praça”, ao lado da isolada caixa d’água.
O local ficava entre a Rua Randolpho Campos e a própria estação, beirando os trilhos de aço reluzentes, onde os meninos costumavam colocar moedas para vê-las virar finas plaquinhas de metal após a passagem do trem.

Aquele local, que na época recebia parques de diversão e circos, era denominado Praça da Estação. A área englobava desde o 13 de Maio (sede do clube) até a esquina da Randolpho Campos, onde hoje se encontram o grande edifício em construção, a sede da subseção da OAB, o Museu (antiga estação férrea), a Justiça do Trabalho e a Biblioteca Digital Professor Chaud (atual sede da Academia Catalana de Letras).

O registro foi feito pelo fotógrafo Dolorinho (Dolores Aires Júnior). Na foto completa, aparecem por trás das crianças: o Bar Dois Pinguins (ainda com apenas um andar), a residência do Dr. Tharsis logo abaixo e, mais à direita, parte do comércio de Nicolau Abrão (visto que o terreno da esquina, onde hoje funciona a Farmácia Municipal, não possuía construção alguma até a estrada de ferro).

Na esquina da Randolpho Campos, junto à via férrea, havia a abertura de um bueiro pluvial; outro ficava mais abaixo, no cruzamento com a Avenida Farid Miguel Safatle (que então tinha outra denominação, pois o Sr. Farid ainda era vivo).

Pois bem, esse grupo de “pirralhos”, acrescido de Júlio Antônio Pascoal, Dudu (Júlio Orestes) Pascoal, Wagner Horta, Sérgio Saad e Mário “Peru” Calaça, jogava futebol no “campinho”. O local era o que restara das quadras de tênis dos frades franciscanos, ativas na década de 1940 e abandonadas no início dos anos 50. Naquela época, as professoras primárias e jovens catalanos, orientados por Wilson Barbosa, praticavam o tênis com raquetes de madeira, menores que as atuais, e cordas de fibras derivadas de intestinos caprinos.

O futebol era diário, após as aulas, e a rotina durou até quase a adolescência do grupo. Sobre esse terreno, hoje, ergue-se o grande edifício que, por volta de 2006, serviu como estacionamento, além de parte da sede da OAB-GO.

Devido à inclinação natural do terreno, o volume das enxurradas era enorme. A captação pelos bueiros pouco vencia a força da água, mas eles conduziam um grande aporte. O desafio do grupo era atravessar o bueiro por dentro: entrava-se na “boca” junto aos trilhos e saía-se na outra extremidade, na esquina da avenida. Todos atravessavam sem que os adultos soubessem, bem ali, diante do Bar Dois Pinguins.

Vale lembrar que toda essa área era de chão batido e as ruas eram de terra, não havia paralelepípedos, bloquetes ou asfalto. O trajeto pelo bueiro era estreito, repleto de baratas e aranhas (e os temidos escorpiões). Por isso, o local era batizado de “Túnel do Terror”.

A criança passava por momentos de puro estresse quando “entalava” no caminho. Quando a saída demorava, algum corajoso entrava para empurrar e desentalar o colega. Como a coragem era o que ditava o respeito no grupo, crianças de outros bairros vinham enfrentar o desafio; quem não passasse era estigmatizado pelos demais.

Essa molecagem durou até o dia em que um dos meninos cresceu demais e ficou realmente preso lá dentro. O socorro veio através do Sr. Cornélio Ramos, agente da estrada de ferro, e de um auxiliar da RMV, que precisou lambrecar o garoto com o óleo sujo de sua almotolia para soltá-lo.

Aquele episódio decretou o fim do “Túnel do Terror”. Nunca mais a brincadeira teve vez.

Fonte: Crônica escrita por Haroldo Campos, publicada originalmente em sua página pessoal no Facebook em 08 de maio de 2023.

Foto: Dolores Aires Junior (Dolorinho), 1951.