Telezila Netto Blumenschein: uma vida que Catalão precisava reencontrar

Por Maysa Abrão

Pesquisar a vida de Telezila Netto Blumenschein foi muito mais difícil do que eu imaginava. Seu nome está na história de Catalão. Telezila é patrona da Cadeira nº 19 da Academia Catalana de Letras, hoje ocupada pela professora e escritora Ana Flávia Ferreira de Melo. Foi educadora, escritora, poeta, participou da imprensa catalana e integrou a vida intelectual de Goiás. Pertenceu à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, escreveu livro, poemas e hinos e esteve entre as primeiras normalistas formadas pelo Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus.

Ainda assim, quando comecei a procurar sua história, encontrei muito pouco reunido sobre ela. Foi preciso ir atrás. Uma informação levava a outra. Um nome encontrado em um jornal abria outro caminho. Uma página de livro confirmava uma data. Um documento sobre uma irmã ajudava a reconstruir a família. Uma antiga revista de educação revelava a professora. E, em Minas Gerais, um arquivo literário guardava a prova de que seus poemas haviam chegado às mãos de Henriqueta Lisboa.

Foram muitas buscas, becos sem saída, dúvidas e descobertas que, às vezes, cabiam em uma única linha. E isso também diz muito. Uma mulher com uma trajetória tão rica não deveria precisar ser praticamente reconstruída quase um século depois. Sua história estava espalhada, fragmentada em diferentes fontes, quando deveria ocupar um lugar muito mais visível na memória cultural e educacional de Catalão. Foi preciso juntar os pedaços.

A menina de uma família de sete filhos

Telezila Victor Rodrigues Netto nasceu em Catalão, Goiás, em 9 de novembro de 1907, filha do major Benjamin Netto Carneiro e de Maria Benvinda Victor Rodrigues Netto. Era uma entre sete filhos e dividiu a infância com os irmãos Dagmar Victor Rodrigues Netto, Maria das Dores Silveira Rodrigues Netto, Isabel Pastora do Prado Netto, Felicidade Victor Rodrigues Netto, Itamar Victor Rodrigues Netto e Henriqueta Victor Rodrigues Netto.

Alguns desses irmãos também deixaram marcas próprias. Felicidade Victor Rodrigues Netto, a Dona Dadinha, nasceu em São Marcos, município de Catalão, em 7 de novembro de 1906, apenas um ano e dois dias antes de Telezila. Aprendeu vários instrumentos musicais, destacando-se no violino e no bandolim. Casou-se com Vilazito Gonçalves, teve três filhas e, depois de se estabelecer em Araguari, tornou-se empresária, trabalhando durante anos no Bar e Restaurante Napoli. Morreu em 24 de setembro de 1985. Documentos oficiais de Araguari preservaram sua história e confirmaram sua filiação a Benjamin Netto Carneiro e Maria Benvinda Netto. Maria das Dores dividiria com Telezila um momento histórico da educação catalana. Itamar também apareceria ligado à história de O Mosquito, jornal da juventude local.

Telezila cresceu no meio dessa família numerosa, em uma Catalão que ainda atravessava as primeiras décadas do século XX. Seu pai, Benjamin Netto Carneiro, participou da vida pública da cidade e exerceu diferentes funções. Depois de sua morte, foi descrito como um dos cidadãos mais populares de Catalão, homem de espírito generoso e reconhecido pela honestidade no exercício dos cargos que ocupou.

Benjamin morreu em 15 de novembro de 1928. Telezila havia completado 21 anos apenas seis dias antes. É uma sequência de datas que emociona por si só. No dia 9 de novembro, o aniversário da filha. No dia 15, a morte do pai. E Benjamin partiu depois de ter acompanhado uma conquista importante não de uma, mas de duas de suas filhas. No ano anterior, Maria das Dores e Telezila haviam feito parte da primeira turma de normalistas do Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus.

Cinco jovens na primeira turma de normalistas

Em 1927, o Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus formou sua primeira turma de normalistas. Eram cinco jovens: Júlia Victor Rodrigues, Elvira Righetto, Astréia Bretas, Maria das Dores Netto e Telezila Netto. Duas irmãs entre apenas cinco formandas. Telezila tinha 19 anos.

Outro registro histórico do Colégio acrescenta um detalhe precioso. Ao apresentar as oradoras das festas de colação de grau, “desde a primeira”, a relação começa justamente por Telezila Netto. A palavra já ocupava espaço na vida daquela jovem. E continuaria ocupando por décadas.

Telezila e O Mosquito

Antes mesmo de consolidar sua trajetória no magistério, Telezila esteve ligada à imprensa de Catalão. Telezila Netto e Floraci Artiaga Mendes fundaram, redigiram e editaram, em Catalão, o jornal humorístico O Mosquito, periódico dedicado à mocidade catalana. Itamar Netto, irmão de Telezila, também esteve ligado à direção do jornal.

E nós conseguimos encontrar exemplares de O Mosquito. Suas páginas revelam uma juventude catalana surpreendentemente viva: cartas, versos, brincadeiras, pequenas provocações e nomes de rapazes e moças que faziam parte daquele universo. Na edição de 30 de maio de 1926, Telezila aparece grafada como “Thellezila” em uma brincadeira intitulada “Leilão”. Na mesma relação estão Floracy, Astréa, Isabel e Dadinha.

De repente, os documentos nos mostravam uma Telezila muito jovem, aos 18 anos, participando daquele ambiente irreverente de O Mosquito, cercada por nomes de sua geração e envolvida com a vida cultural de Catalão na década de 1920.

Uma escola e o nome Blumenschein

Outro achado chama a atenção por sua data. Registros sobre a história da educação em Catalão mencionam uma escola primária mista particular mantida por Telezila Netto e Fernando Blumenschein, com aproximadamente 50 a 60 alunos, que teria funcionado entre 1925 e 1928.

O dado é importante porque coloca Telezila muito cedo dentro do universo educacional. E também porque o sobrenome Blumenschein aparece em sua trajetória anos antes de seu casamento. As fontes que encontramos usam o nome Fernando Blumenschein nesse episódio. Mais tarde, seu marido aparece registrado como Hans Blumenschein. A razão dessa diferença de nomes não apareceu nos documentos localizados até agora. É um daqueles pequenos mistérios que a pesquisa ainda guarda.

Uma vida dedicada à educação

Depois de formada, Telezila fez do magistério seu caminho. Lecionou em Catalão e Goiandira. Mais tarde transferiu-se para Pires do Rio, onde manteve e dirigiu a Escola Santa Terezinha.

Em 31 de janeiro de 1934, casou-se com Hans Blumenschein, de origem alemã, descendente de Antony Albert Ferdinand Braun Blumenschein, de Stuttgart, Alemanha. O casal não teve filhos.

Em 1949, Telezila e Hans fixaram residência em Goiânia, onde sua trajetória como educadora ganhou novo espaço. Ela lecionou durante muitos anos no Grupo Escolar Modelo e no Instituto de Educação. Seu trabalho ultrapassou a sala de aula. Telezila participou das discussões pedagógicas de seu tempo e teve trabalhos publicados na Revista de Educação, periódico importante para a circulação de experiências e ideias educacionais em Goiás.

Em 1960, publicou o trabalho “A Árvore”. A proposta partia de um elemento simples para alcançar questões muito maiores. Telezila trabalhava com os alunos o respeito às árvores, a utilidade dos vegetais, a agricultura, a conservação das riquezas naturais e o desenvolvimento do país. As crianças eram estimuladas a observar, escrever, desenhar e relacionar o conhecimento escolar com a vida ao seu redor. Mais de trinta anos depois daquela primeira turma de normalistas de Catalão, Telezila continuava pensando sobre educação, e compartilhando sua experiência com outros professores.

A escritora e a poeta

Telezila publicou Jornada Feliz – Português Moderno, obra voltada ao ensino da língua portuguesa. Mas sua escrita não se limitou à educação. Telezila também era poeta. Entre os trabalhos que chegaram até nós está “Balada da Saudade”, datado de Goiânia, em 26 de agosto de 1971. E existe um título que se tornou uma das grandes curiosidades desta pesquisa: Infinita Manhã, livro de poesias de Telezila registrado nas fontes como inédito.

Seus versos chegaram também às mãos de uma das grandes escritoras brasileiras. Em 24 de novembro de 1971, Henriqueta Lisboa escreveu, de Belo Horizonte, para Telezila Blumenschein. O registro dessa correspondência está preservado no inventário do Acervo de Escritores Mineiros, da Universidade Federal de Minas Gerais. A descrição informa claramente o assunto: “Comentários sobre poemas de Telezila Blumenschein.” Entre tantos documentos encontrados, essa pequena anotação tem um peso enorme. A poesia daquela professora nascida em Catalão em 1907 chegou às mãos de Henriqueta Lisboa, uma das grandes vozes da literatura brasileira.

Telezila também escreveu para a música. É dela a letra do Hino Oficial do Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus, a instituição onde havia estudado e se formado. Em 1962, durante o V Congresso de Professores Primários, realizado em Goiânia, escreveu “A Oração da Mestra” e o hino “Mestra”, musicado pelo maestro Jean Douliez. Educação e literatura caminharam juntas em sua vida.

Uma mulher nas Academias

O reconhecimento intelectual de Telezila chegou também às instituições literárias. Ela pertenceu à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, ocupando a Cadeira nº 37. Seu nome permanece registrado nos estudos sobre a presença feminina na literatura e na intelectualidade goiana.

E Catalão também preservou sua memória no espaço acadêmico. Telezila Netto Blumenschein é patrona da Cadeira nº 19 da Academia Catalana de Letras. Em 28 de agosto de 2026, a professora e escritora Ana Flávia Ferreira de Melo tomou posse justamente na Cadeira nº 19, tendo Telezila como patrona.

Quase um século separa a jovem normalista de 1927 da posse de Ana Flávia em 2026. E existe algo muito bonito nessa continuidade: uma instituição literária de sua cidade natal mantém vivo o nome de uma mulher que dedicou grande parte da existência à educação e às letras.

As raízes de Telezila

A genealogia também revelou o quanto a história da família de Telezila está entrelaçada à própria história de Catalão. Seu pai, Benjamin Netto Carneiro, era filho de Pedro Netto Carneiro Leão e Henriqueta Christina Phelippe da Silveira. Sua mãe, Maria Benvinda Victor Rodrigues, era filha de Francisco Victor Rodrigues e Felicidade Perpétua da Silveira. Henriqueta Christina e Felicidade Perpétua eram irmãs. Assim, Benjamin e Maria Benvinda eram primos em primeiro grau.

Pelo ramo Netto Carneiro, a genealogia chega a Emerenciana Netto Carneiro Leão, filha de Thomazia Netto Carneiro Leão, irmã de Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná. Telezila pertencia, portanto, a um ramo colateral da família do importante estadista do Império brasileiro. Pelo lado materno, aparecem os Victor Rodrigues e os Rodrigues da Paixão, famílias de raízes mineiras profundamente ligadas à formação histórica de Catalão.

Essa genealogia não está aqui apenas por curiosidade. Ela situa Telezila dentro de uma rede de famílias cujos nomes atravessam documentos, instituições e diferentes momentos da história catalana.

A última viagem

Em 1979, Telezila estava em uma viagem de lazer pelos Estados Unidos quando morreu em Los Angeles. Há uma divergência entre as fontes quanto à data exata: um registro apresenta 12 de maio de 1979, enquanto outro apresenta 5 de dezembro de 1979. É uma das poucas questões que ainda permanecem abertas.

Mas o percurso que conseguimos reconstruir é muito maior que essa divergência. Entre Catalão e Los Angeles couberam mais de sete décadas de uma vida ligada à educação e às letras.

Por que foi tão difícil encontrar Telezila?

Depois de tudo o que encontramos, essa pergunta ficou comigo: como uma mulher com essa trajetória pôde permanecer tão pouco conhecida na história de sua própria cidade?

Não faltavam realizações. Faltava reuni-las. Sua história estava espalhada: uma parte em um livro antigo de Catalão; outra nas páginas de O Mosquito; outra em documentos escolares; outra em Goiânia, numa revista dedicada à educação; outra em um arquivo literário de Minas Gerais; outra na história de sua família; outra nas Academias.

Pesquisar Telezila foi trabalhoso e, em vários momentos, frustrante. Quanto mais descobríamos sobre ela, mais difícil ficava compreender por que sua trajetória não havia recebido, ao longo do tempo, um registro biográfico à altura de sua importância. Telezila não precisa que esta pesquisa a transforme em uma mulher importante. Ela já era.

Foi uma das cinco primeiras normalistas do Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus. Participou da imprensa catalana ainda muito jovem. Dedicou décadas ao magistério. Dirigiu escola. Escreveu sobre educação. Publicou livro. Fez poesia. Escreveu hinos. Teve seus poemas lidos por Henriqueta Lisboa. Pertenceu à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e é patrona da Cadeira nº 19 da Academia Catalana de Letras. E, em 2026, quando Ana Flávia Ferreira de Melo tomou posse nessa cadeira, seu nome continuou ocupando o lugar que lhe foi reservado na instituição literária de sua terra natal.

Depois de tantas buscas, talvez essa seja a conclusão mais importante desta pesquisa. Telezila nunca esteve fora da história de Catalão. Se hoje foi tão difícil encontrá-la, não foi porque tivesse deixado pouco. Foi justamente o contrário. Ela deixou tanto que seus rastros chegaram a diferentes cidades, escolas, jornais, livros, revistas, arquivos e instituições.

O que faltava era juntar tudo isso e olhar novamente para aquela menina nascida em Catalão em 1907. Seu nome era Telezila Victor Rodrigues Netto. E sua história merecia ser contada. 

Maysa Abrão

Fontes de pesquisa

  • VAZ, Geraldo Coelho. Vultos Catalanos. Uberaba: Editora Zebu, 1959.
  • CHAUD, Antônio Miguel Jorge. Memorial do Catalão.
  • Jornal O Mosquito — exemplares históricos digitalizados.
  • Marcial Campos Teixeira — Historiografia para Catalão e Aportes à Genealogia Mineira no Sudeste de Goiás.
  • BLUMENSCHEIN, Telezila. Plano de aula; unidade didática: A árvore. Revista de
    Educação, n. 42, jan./fev. 1960, p. 16-19. Referência registrada em pesquisa
    acadêmica sobre o escolanovismo em Goiás.
  • BRZEZINSKI, Iria. Instituto de Educação de Goiás (1937-1972): o movimento
    instituinte-instituído. Anais do VI COLUBHE. Uberlândia, 2006.
  • CURADO, João Guilherme da Trindade. A circulação do ideário escolanovista no
    Estado de Goiás (1937-1962). Pesquisa acadêmica sobre a Revista de Educação e
    a circulação das ideias da Escola Nova em Goiás.
  • LISBOA, Henriqueta. Correspondência com Telezila Blumenschein. Belo
    Horizonte, 24 nov. 1971. Registro no inventário do Acervo de Escritores Mineiros,
    Universidade Federal de Minas Gerais.
  • MARTINS, Luciana da Silva. Amália Hermano Teixeira e o escolanovismo em
    Goiás. Dissertação. Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A pesquisa registra
    a atuação de Telezila Blumenschein na Revista de Educação e reproduz a referência
    ao plano de aula “A árvore”.
  • ROCHA FILHO, Ulysses et al. Documentação e registros institucionais da Academia
    Catalana de Letras.
  • ACADEMIA CATALANA DE LETRAS. Registros de patronos e ocupantes de cadeiras
    acadêmicas.
  • BLOG DA MAYSA ABRÃO. Academia Catalana de Letras recebe novos confrades
    em solenidade marcada pela cultura, memória e renovação. 30 ago. 2026.
  • PESQUISAR A AFLAG: redescobrindo as mulheres da literatura goiana. Anais
    eletrônicos, estudos sobre mulheres, literatura e cultura em Goiás. Registro de
    Telezila N. Blumenschein como patrona da Cadeira nº 37.

 

Pesquisa, levantamento e cruzamento das fontes: Maysa Abrão.