CRAC com time de FUTEBOL e de VÔLEI? Sim, por que não?

*Cleber Borges

Depois de três rodadas consecutivas para definir a semifinal da Superliga Feminina de Voleibol, na última sexta-feira (24/03), o Praia Clube, de Uberlândia, se classificou para a final da principal competição do voleibol brasileiro ao vencer o Sesc-Flamengo, a equipe líder da primeira fase, pelo placar de 3 sets a 2. A vibrante vitória sobre a maior vencedora desse confronto se deu em pleno Ginásio do Maracanãzinho – o templo do vôlei brasileiro – com as cariocas tendo o lendário Bernardinho como técnico, a ponteira norte americana Simone Lee, a central sérvia Masa Kirov e com mais quatro atletas do Flamengo jogando na Seleção brasileira. Dentre as 12 participantes, o Gerdau Minas (de BH), será a outra finalista que irá definir a temporada 2025/2026 da Superliga em jogo único a ser realizado às 10h do dia 3 de maio, no Ginásio Ibirapuera, em São Paulo.

Essa será a 5ª vez nesta década que o “Clássico Pão de Queijo” decide o título da competição. Além de ser bicampeão da Superliga Feminina, o Praia é tricampeão Sul Americano de Clubes, bicampeão da Copa Brasil, tetracampeão da Supercopa, campeão do Troféu Super Vôlei e octacampeão do Campeonato Mineiro. Em duas oportunidades, a equipe disputou o Campeonato Mundial de Vôlei, tendo conquistado o 4º lugar em 2023.

Duda Lisboa e Ana Patrícia, dupla detentora do título mundial de vôlei de 2022 e ganhadora da medalha de ouro nas Olimpíadas de Paris em 2024 também se formou no Praia. Elas recolocaram o Brasil no lugar mais alto do pódio do vôlei de praia feminino após 28 anos, quando, em 1996 essa modalidade esportiva foi incluída nos Jogos Olímpicos.

Fundado há 91 anos para a prática da natação às margens do rio Uberabinha, em sua sede de mais de 300 mil m2, o Praia Clube oferece 16 modalidades esportivas nas categorias infantil, infantojuvenil, juvenil e adulto e ainda dá suporte ao voleibol de Araguari, cidade vizinha, do Triângulo Mineiro.

Um outro município expoente da região é Monte Carmelo, com o Azulim/Sicoob Aracoop/Monte Carmelo, equipe campeã em 2024 e 2025 da Superliga B, patrocinada pela iniciativa privada e apoiada pela Academia de Vôlei de Uberlândia. Aliás, em Uberlândia, além do Praia Clube e do Academia de Vôlei, a cidade ainda oferece escolinhas de iniciação esportiva gratuita na Futel (Prefeitura), Arena Crof (Beach Tennis) e no Sesc-Uberlândia, que conta pelo menos com mais seis modalidades esportivas.

Todas essas experiências vitoriosas das vizinhas cidades mineiras deveriam ser assimiladas pelo Crac (Clube Recreativo Atlético Catalano) time fundado em 1931 que, ao longo desses 95 anos, conquistou apenas dois campeonatos estaduais: um em 1967 e o outro em 2004.

Apesar disso, há um consenso de que o clube é referência e uma das paixões da população catalana, mas muitos reconhecem também que boa parte dos jogadores contratados, depois de uma curta temporada, independente de resultados, recebem seus salários e vão embora, sem demonstrar nenhum compromisso com a cidade. Este ano, por exemplo, o envolvimento dos torcedores do time se restringiu à duração do Campeonato Goiano, que durou de 15 de janeiro a 10 de março, ou seja, apenas dois dos 12 meses do ano. O Crac ficou em 8º lugar entre as 12 equipes participantes.

As críticas ao desempenho do time e à administração do clube se intensificaram nos últimos dias a partir da disseminação do boato de que o Crac se tornou uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol) sem que houvesse um amplo debate com a comunidade e tendo recebido cerca de R$ 17 milhões da Prefeitura nos últimos dez anos. Por isso, especula-se o fim dessa ajuda, que sai todo ano do erário público.

A suspensão dos repasses financeiros ao time pode leva-lo inevitavelmente à falência e até a sua extinção. Ao meu ver, a saída para essa iminente crise seria aportar novos recursos junto à iniciativa privada, através de uma Lei de Incentivo Ao Desporto, com apoio, por exemplo, de multinacionais como a John Deere, Mitsubishi, Yara, Mosaic, CMOC, etc., mas com a proposta de inclusão do voleibol como uma nova modalidade esportiva para o clube.

Diferentemente do futebol, o vôlei possibilita trabalhar a chamada “prata da casa”, ou seja, aproveitar atletas da cidade desde a adolescência, tanto dos meninos como das meninas. Assim, o envolvimento dos esportistas pode durar um longo período da vida deles. Não se descarta a coexistência do vôlei e o futebol.

A ideia é aproveitar as quadras poliesportivas já existentes e o Ginásio Internacional de Catalão, arena esportiva fundada no final dos anos 1980 e poucas vezes utilizada desde então. Inevitável nesse processo é o envolvimento do experiente e vitorioso voleibol da cidade de Uberlândia, um dos principais polos logísticos, econômicos e esportivos do Brasil.

 

*Cleber Borges é professor e jornalista.