DIRETO DO ARQUIVO: As Lágrimas e as Pedras – O Testemunho de Paulo Hummel nos 150 Anos de Catalão

Por Maysa Abrão

“Não são os grandes planos que dão certo; são os pequenos detalhes.” Essa frase, dita por quem ajudou a calçar os caminhos da nossa terra, resume o que foi o dia 20 de agosto de 2009. Catalão soprava as velinhas de um sesquicentenário (150 anos), ostentando o orgulho de quase 100 mil habitantes e uma prosperidade vibrante. Mas, para entender o brilho daquela festa, precisei mergulhar no passado através dos olhos marejados de quem viveu o centenário, em 1959: o ex-prefeito Paulo Hummel.

Sentar com o Sr. Paulo foi mais que uma entrevista; foi uma viagem mística. Ele me levou para uma Catalão de sessenta e sete anos atrás, onde a magia não vinha do dinheiro, mas da união de um povo que vibrava com cada pequeno progresso.

O Milagre de 1959: Jacy de Campos Netto e o “Primeiro Dentinho”

Em 1959, o cenário era outro. O prefeito era Jacy de Campos Netto. Segundo Paulo Hummel, a prefeitura não tinha recursos, não havia as facilidades tecnológicas de hoje, mas havia algo que o dinheiro não compra: a simpatia e a articulação política.

Jacy era um mestre na arte de cativar. Ele visitava as casas de amigos e até de adversários políticos, tomava um café, almoçava com simplicidade e saía de lá com uma doação para a festa do centenário. Paulo usou uma imagem inesquecível para descrever a alegria daquela época:

“Foi como quando uma pessoa pega um bebê e encontra em sua boquinha o primeiro dentinho que está nascendo. O povo vibrou de alegria com a comemoração do centenário.”

O Ranchão sobre o Buraco: A Construção Coletiva

A festa de 100 anos não aconteceu em um salão luxuoso, mas em um local que exigiu o suor da comunidade. Onde hoje está o Banco Mercantil, em frente à Praça Getúlio Vargas, havia apenas um enorme buraco. Jacy pediu ajuda aos amigos fazendeiros, que enviaram caminhões de terra; o próprio Paulo Hummel, com suas carroças e sua olaria, ajudou a aterrar o local.

A estrutura foi erguida com madeira doada e cimento. As donas de casa de Catalão, com um capricho comovente, cuidaram de cada detalhe da ornamentação. Ali nasceu a pirâmide de mármore de sete metros, com uma placa de ferro imortalizando os nomes daqueles que amavam a cidade. Uma pirâmide que, com o tempo, as gestões seguintes deixaram desaparecer, assim como os monumentos e o asfalto cobriu a história.

A Dor dos Bloquetes: “Um Dente sem Anestesia”

Foi aqui que a voz do Sr. Paulo embargou e a magia do texto deu lugar à profundidade do sentimento. Paulo Hummel foi o homem que, em 1964, deu início ao calçamento do centro, começando pela “Rua do Cinema”. Para ele, os bloquetes eram o símbolo de uma cidade saudável, luxuosa e duradoura.

A retirada desse pavimento para a colocação do asfalto foi sentida por ele como uma agressão física à memória da cidade:

“A retirada dos bloquetes para mim foi como arrancar um dente sem dar anestesia. Respeito o direito de quem tem o poder, mas dói ver algo que duraria duzentos anos ser trocado por um asfalto que precisa de reforma a cada dois. É vergonhoso ver o dinheiro que poderia ir para a saúde e educação ser gasto assim, sem nem me comunicarem.”

Naquelas lágrimas que escorreram em 2009, não havia apenas o lamento de um ex-político, mas o choro de um cidadão que via a economia e a tradição serem soterradas pela conveniência do momento.

Entre o Idealismo e as Obras: O Veredito de Paulo Hummel

Ao olhar para o progresso, que ele descreveu como uma mudança “da água para o vinho”, o Sr. Paulo fez justiça aos nomes da nossa história.

  • Para ele, em termos de visão, idealismo e amor real pela cidade, o maior prefeito foi Jacy de Campos Netto.

  • Já no quesito de obras e transformações físicas, ele não hesitou em “tirar o chapéu” para Adib Elias Junior.

 

O Ciclo se Fecha: A Despedida de um Visionário (2020 – 2026)

O tempo, esse mestre invisível, guardou para o dia 30 de janeiro de 2020 o capítulo final da jornada terrena de Paulo Hummel. Ele partiu a poucos anos de completar seu centenário pessoal, ele que tanto amou o centenário de sua terra.

Ao olharmos para trás, percebemos que as lágrimas que caíram em nossa entrevista de 2009 não eram de tristeza, mas de um amor tão profundo que doía. Sr. Paulo não era apenas um ex-prefeito; ele era um dos últimos guardiões de uma Catalão que se construía no fio do bigode, na base da amizade e no suor compartilhado.

Onde as “Pedras” Encontram a Eternidade Dizem que os homens passam, mas as obras ficam. No caso de Paulo Hummel, o que ficou foi muito mais que o asfalto ou os antigos bloquetes que ele tanto defendeu. Ficou o exemplo de que o poder só faz sentido se for usado para servir. Ele foi o homem que sonhou com as “pedras” que durariam duzentos anos, mas acabou construindo algo muito mais resistente: uma memória de dignidade.

Em 2020, o decreto de luto oficial na cidade foi apenas uma formalidade. O luto real estava no silêncio das ruas que ele pavimentou e no coração de cada catalano que sabia que, com ele, partia uma biblioteca viva de esperança.

O Legado em 2026 Hoje, com o Sr. Paulo Hummel já em outro plano, esse texto de 2009 ganha contornos de testamento. Ele nos ensinou que uma cidade de 150, 160 ou 200 anos não é feita de concreto, mas de respeito aos que vieram antes. E, o Blog da Maysa Abrão faz mais do que um resgate; faz uma promessa. A promessa de que os “pequenos detalhes” que o Sr. Paulo tanto valorizava não serão esquecidos. Que a história de Jacy de Campos Netto, o milagre da festa de 1959 e a luta pela identidade urbana de nossa cidade continuem sendo contadas.

Paulo Hummel não está mais aqui para ver o progresso atual, mas temos a certeza de que, onde quer que ele esteja, ele continua “tirando o chapéu” para o trabalho bem feito e, quem sabe, sorrindo ao ver que o “primeiro dentinho” daquela Catalão de 1959 se transformou em um sorriso forte e vibrante que brilha até hoje.

Descanse em paz, Sr. Paulo. Suas pedras podem ter sido cobertas pelo asfalto, mas os seus passos continuam marcados na nossa história.

FOTO: PRAÇA GETÚLIO VARGAS NA DÉCADA DE 1960, PAVIMENTAÇÃO COM BLOQUETES NA ADMINISTRAÇÃO PAULO HUMMEL.

Reflexão para o Blog:

  • Você chegou a andar nas ruas de bloquetes de Catalão?

  • O que você acha que vale mais: a modernidade rápida ou a durabilidade da nossa história?

Deixe seu comentário abaixo. Vamos honrar a memória de Paulo Hummel e Jacy de Campos Netto compartilhando nossas lembranças desses 150 anos que agora já são mais!

TEXTO: Maysa Abrão 

FOTOS: Arquivo da família/Reprodução