DIRETO DO ARQUIVO: Danúbio Castro Marques – O Homem que Celebra a Vida como uma Missão Sagrada
Por Maysa Abrão
“Fiz uma proposta para mim mesmo: irei viver até os 100 anos.”
Quando registrei essa frase de Danúbio José Castro Marques em 9 de setembro de 2009, percebi que não estava diante de um simples entrevistado, mas de um homem que decidiu ser o arquiteto do seu próprio tempo. Naquela tarde, Danúbio, aos 53 anos, abriu o baú de uma vida que começou com o brilho da graxa nos sapatos e se transformou em um dos legados mais bonitos de resiliência e amor que já vi em nosso Catalão.
O Menino de Medina: Onde o Trabalho não Roubou a Infância
Tudo na vida de Danúbio começou com o sol forte de Medina, em Minas Gerais. Aos nove anos de idade, ele já tinha seu primeiro emprego: engraxate. Mas, ao contrário do que muitos possam imaginar, aquele trabalho precoce não tirou o brilho de sua meninice.
Com uma nostalgia doce, ele me contou que teve “a melhor infância que alguém pode ter”. Em uma época sem televisão, as ruas de Medina eram o seu playground. Filho de pais separados, ele cresceu honrando o padrasto como o verdadeiro pai que o destino lhe deu. Aos 12 anos, já era office boy de uma construtora. Ali, entre recados e engraxates, nascia a determinação que se tornaria sua marca registrada.
O Baile do Destino em Anápolis
Aos 17 anos, Danúbio mudou-se para Brasília, onde rapidamente mostrou a que veio. Em seis meses no Banco Francês Brasileiro, conquistou a vaga de caixa, migrando um ano depois para o Banco do Brasil. Mas o grande “lance” do destino não aconteceu em um guichê de banco, mas em um baile em Anápolis.
Danúbio, o mineiro de Brasília, e Carmem Cristina, a moça de Catalão, se encontraram em uma cidade estranha para ambos. Foi amor à primeira vista. Foram três anos de um namoro de estrada e saudade, com Danúbio cruzando o caminho para Catalão todos os finais de semana. Em 1978, o altar da Velha Matriz de Catalão testemunhou o “sim” que daria início a uma família de realização total.
O Sonho de ser Catalano: Um Voto de Fidelidade
A paixão de Danúbio por Catalão é algo que ele mesmo define como “espiritual”. Ele lutou anos pela transferência para o Banco do Brasil daqui, chegando finalmente em 1986. E quando a vida o testou, em 1995, com um plano de demissão voluntária, ele não hesitou: preferiu deixar a carreira bancária de décadas para não correr o risco de ser transferido para longe desta terra.
Foi assim que nasceu a Asa Seguros. Para ele, o amor por Catalão dispensa documentos: “Não preciso de nenhum título de cidadão catalano, porque um simples papel não me faria sentir mais catalano do que já sou”. Ele serviu à cidade como presidente da AABB (1989-1991), no Rotary por 18 anos, como palestrante em igrejas e líder político, sempre movido por esse sentimento de que, se existissem outras vidas, ele certamente já teria sido catalano em todas elas.
Davi: O Bilhete Premiado na Megasena da Alma
Pai aos 23 anos da primogênita Isabela, Danúbio viu seu mundo ganhar novas cores, e novos desafios, com a chegada dos gêmeos Gabriela e Davi (In memoriam). Foi nessa época que ele descobriu a missão mais nobre de sua existência: ser pai de uma criança especial.
A toxoplasmose na gravidez da esposa resultou na calcificação cerebral de Davi, mas Danúbio nunca usou a palavra “desespero”. Pelo contrário, ele usa a palavra “dádiva”:
“Deus manda crianças especiais para famílias especiais. O Davi me fez crescer muito como pessoa; se eu não o tivesse, talvez não fosse o homem que hoje sou. Posso dizer que ganhei na megasena. Fui escolhido para me tornar uma pessoa melhor por meio de um ser humano ímpar. Quem tem um filho especial tem que se sentir premiado.”
Com uma honestidade de arrancar lágrimas, ele confessou que as alegrias que o Davi não pôde dar, como torcer pelo seu Botafogo ou jogar futebol, Deus enviou em dobro com a chegada do neto João Pedro, que ao lado da pequena Maria Luiza, veio para completar o círculo de felicidade da família.
Rumo ao Centenário: O Exemplo de Maria Castro
Botafoguense doente e apaixonado pela vida, Danúbio encerrou nossa conversa em 2009 falando de sua maior inspiração: sua mãe, Dona Maria Castro, que aos 80 anos vivia forte e sadia em Medina. É nela que ele espelha sua “proposta” de viver até os 100 anos.
Hoje, ao resgatarmos este texto em 2026, a determinação de Danúbio continua sendo um farol. Ele nos ensina que o tempo não é algo que nos consome, mas algo que a gente preenche com trabalho, amor incondicional e a coragem de abraçar as missões que o céu nos envia.
Reflexão do Blog da Maysa:
O depoimento do Danúbio sobre o Davi é um dos mais fortes que já publiquei. Ele nos faz questionar: o que estamos fazendo com as “missões” que recebemos na vida?
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Você tem alguma lembrança do Danúbio na AABB ou na Asa Seguros?
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Como essa visão dele de “ganhar na megasena” com um filho especial mudou a sua forma de ver os desafios hoje?
Deixe seu comentário abaixo. Vamos honrar a história desse mineiro-catalano que decidiu que a vida, para ser boa, só precisa de fé, trabalho e um coração que não tem medo de amar!
TEXTO e FOTOS: Maysa Abrão