DIRETO DO ARQUIVO: Dona Joana e a Promessa que Atravessou o Século – O Terreiro Sagrado de São Pedro
Por Maysa Abrão
Existem promessas que são feitas com os lábios, mas existem aquelas que são seladas com a alma. No resgate de hoje do nosso acervo, voltamos a uma noite de 29 de junho de 2009, quando o cheiro do quentão e o som do terço cantado transformavam a residência de Dona Joana Rosa dos Santos no epicentro da fé em Catalão.
Hoje, com Dona Joana já descansando nos “campos de São Pedro”, reler sua história é entender o peso e a beleza de uma herança bendita.
O Milagre que Deu Início a Tudo
Para entender o brilho nos olhos de Dona Joana naquela época, precisamos voltar quase um século no tempo. Tudo começou com uma agonia: Pedro, filho de Davi Rosa dos Santos, caiu gravemente enfermo. Diante da fragilidade da vida, o pai fez um pacto com o Guardião das Portas do Céu: se o filho se recuperasse, São Pedro teria uma festa em sua honra todos os anos.
A graça foi alcançada. Pedro viveu, e Davi cumpriu sua palavra até o último suspiro.
O Sim da Irmã Mais Velha
A história de Dona Joana é marcada por um momento de coragem silenciosa. No leito de morte, Davi pediu que a tradição continuasse. O filho Pedro, por quem a promessa fora feita, recusou o fardo. Foi então que Joana, a filha mais velha, assumiu o mastro da fé.
“Meu irmão não quis assumir a promessa, mas como eu era a irmã mais velha aceitei e prometi ao meu pai que faria a festa enquanto viva eu fosse”, contou-me Joana em 2009, com a serenidade de quem sabia que sua missão era maior que seu cansaço.
Um Terreiro para Mil Corações
Aos 84 anos, quando a entrevistamos, Dona Joana era a personificação da hospitalidade. Sua casa não recebia apenas convidados; recebia uma multidão. Mais de mil pessoas, de prefeitos a vizinhos anônimos, lotavam o terreiro para o levantamento do mastro e a dança do forró.
O que mais impressionava era a gratuidade do afeto. Pipoca, comidas típicas e quentão eram servidos a todos, fruto de uma rede de solidariedade que Dona Joana tecia o ano inteiro. “Tudo que faço e sirvo é ganho”, dizia ela, provando que quando a fé é o tempero, nunca falta pão na mesa.
O Legado da Guardiã
Dona Joana nos deixou, mas o eco do seu terço cantado ainda ressoa. Ela não foi apenas uma organizadora de festas; foi a guardiã de um pacto familiar que ensinou a Catalão o valor da gratidão.
Rever essas fotos e palavras em 2026 nos faz pensar: quem são hoje os guardiões das nossas tradições? Dona Joana cumpriu sua parte. Ela manteve o mastro erguido enquanto a vida lhe permitiu, e hoje, certamente, São Pedro a recebeu com as portas abertas e o terreiro em festa.



Você viveu as festas na casa da Dona Joana?
Aqueles 29 de junho ficaram marcados na história do nosso povo.
-
Você se lembra do levantamento do mastro ou do sabor daquela pipoca?
-
Tem alguma lembrança especial com a Dona Joana ou sua família?
Deixe seu comentário abaixo. Vamos manter vivo o nome desta mulher que fez da sua vida uma eterna homenagem à fé e ao pai.