MEMÓRIAS ESPARSAS DA VELHA CATALÃO

Catalão ficou conhecida como terra de homens valentes, como reduto de intelectuais, como local de grandes empreendedores e como palco de sangrentas disputas políticas. Sempre foi uma cidade, de alguma forma, respeitada e famosa. Basta lembrar que o Sítio do Catalão foi o primeiro povoamento no território goiano, fundado por integrantes da própria bandeira do Anhanguera.
Durante um longo período, a cidade era lembrada como terra da violência e da valentia pessoal. Isso fez com que muitos catalanos, ao residir em outras localidades, fossem recebidos com receio e tratados com certo distanciamento. Reputação que, ao invés de envergonhar, proporcionava velado orgulho aos filhos de Catalão.
Não era para menos. Essa fama começou por volta de 1890 com embates políticos, cada vez mais sangrentos, que deixaram um rosário de crimes em todas as camadas da população, durante quase meio século.
No meio político, os assassinatos do coronel Salviano da Costa, do senador Antônio Paranhos e do capitão Carlos de Andrade marcaram a história do município. No todo, episódios que poderiam servir de roteiro para qualquer cineasta. O coronel Salviano, por exemplo, foi cercado por mais de trinta jagunços, numa praça da Rua da Grota, sendo covardemente executado.
Na condição de cidade de fronteira, Catalão se tornou reduto preferido de fugitivos das Minas Gerais. Isso, desde tempos remotos quando o município esteve aterrorizado por bandos armados, como do Índio Afonso e da Caetaninha do Rio Verde.
Com o tempo, o jaguncismo foi ganhando notoriedade a ponto de, nas décadas iniciais do século passado, a valentia alcançar condição de popularidade, temor e respeito, envolvendo pessoas de todas as condições sociais.
A lista dos envolvidos, responsáveis por inúmeras tragédias em Catalão, é extensa. Nela estão filhos de fazendeiro, como Salvianinho e Antônio Teotônio da Costa, trabalhadores rurais como os irmãos Dorneles, intendentes municipais como Eliseu da Cunha e Salomão de Paiva, membros de famílias abastadas como João Sampaio, Isaac da Cunha, além de pessoas simples, incultas, como Veridiano, Caldeira, João Teodoro, Antônio Cândido, Neca Mulato, Rigozino, Raul Prateado, Tião Pé Grande, Baianinho e tantos outros mais.
Na metade do século, com a disseminação do código de postura, fortalecimento das leis, criação de escolas e eleições democráticas, o jaguncismo e a valentia foram perdendo notoriedade. A cidade foi apagando a velha fama de crueldade e desordem, reputação que somente voltou à tona, no final do século, com o assassinato do prefeito Eurípides Três Ranchos, crime até hoje não desvendado.
Todavia, o mais interessante é que, nesse arroubo histórico de valentia, floresceu também a intelectualidade em Catalão. O poeta e o escritor conviviam com o jagunço e o valentão no mesmo cenário.
No início do século anterior, Catalão ganhou o título de Atenas de Goiás, marcando presença no pódio da intelectualidade goiana. Era o tempo da Arcádia Catalana, um grupo de poetas e escritores que tornou conhecida a literatura da região. Liderados por Ricardo Paranhos, vários nomes de intelectuais ficaram na memória local, como Alceu Victor Rodrigues, Eliseu de Lima, Gastão de Deus, Álvaro Paranhos, Francisco Victor Rodrigues, Randolfo Campos, Antonio Azzi, Rivadávia Mendonça, Terezila Netto, Astréa Bretas, Galeno Paranhos, Estelita Campos, Elvira Righeto, Dona Mariazinha, Wilson Democh e outros mais.
Após a metade do século, outra geração de intelectuais fundou a Academia Catalana de Letras. Entre eles, Cornélio Ramos, Jamil Sebba, Júlio Pinto de Melo, Antônio Miguel Chaud, Marly Netto, René Estevam Deckers, Geraldo Coelho Vaz, César Ferreira, Labiba Fayad, Paulo Fayad Sebba e Monsenhor Primo Vieira.
Além do aspecto cultural, Catalão se destacou em função dos empreendedores industriais que fizeram do município o mais evoluído economicamente do estado.
No ramo do açúcar e álcool, Jocelyn Gomes Pires, Antônio Salles e Francisco Cassiano Martins. Na atividade agroindustrial da carne bovina e derivados, Aristides de Freitas, Pedro Braga, João Margon, Irmãos Rocha, Irmãos Fonseca, Jesus Lopes e Nicola Alliprandini. Na área da cerâmica, José Marcelino, Augusto Silvestre e Silvino Gomes. No beneficiamento de grãos, Joaquim de Araújo, Antônio de Oliveira Santos, Pio Gomes, Miguel João & Filhos, João Cosac, Calixto Abud, Nasr Faiad, Jorge Democh, Ademar Rodovalho e Bento Rodrigues de Paula. No setor comercial, Safatle, Abrão, Paschoal, Sebba, Elias, Democh e outra dezena de famílias empreendedoras sobrevivem na memória catalana.
Por fim, as oligarquias políticas conduziram parte da história do município. Tanto que, durante muito tempo, o sobrenome de família era condição de notoriedade.
Paranhos, Ayres, Sampaio, Pires, Netto, Hummel, Campos, Rocha, Evangelista, Paschoal, Margon, Fayad e Sebba, entre outros, marcaram a antiga genealogia da política local.
De fato, uma cidade de memória fecunda, tanto na valentia de antigamente como na intelectualidade e nas dimensões econômica e política.
Por Luís Estevam
FOTO CAPA: Vista de Catalão na década de 1940.