O ECO DAS AVE-MARIAS: O Legado Imortal de Fé e Caridade de Dona Nazira Abrão
A oração não é apenas um sussurro ao vento; ela é a ocupação mais sublime e necessária da vida humana. Rezar é um exercício sagrado que convoca as potências mais profundas da nossa alma: a memória, que resgata as graças; o entendimento, que busca a sabedoria divina; e a vontade, que se coloca a serviço. É um encontro de amor absoluto entre Deus, o personagem principal de nossas vidas, e o ser humano, que n’Ele busca sentido.
Hoje, ao mergulhar no acervo do meu trabalho e resgatar registros valiosos de 2009, meu coração transborda uma emoção que as palavras mal conseguem conter. Relembrar o “Terço das Segundas-Feiras” no Setor Central de Catalão é um ato de amor e honra às minhas raízes. No centro dessa corrente de luz, estava uma história escrita por duas mulheres extraordinárias da minha vida: minha mãe, Édima Abrão, e minha tia, Nazira Abrão de Castro.
A Origem de uma Missão: O Coração de Minha Mãe
Toda grande caminhada começa com um primeiro passo de coragem. Este terço, que se tornou um pilar de fé em nossa cidade, nasceu da iniciativa e do coração de minha mãe, a empresária Édima Abrão. Foi ela quem, há mais de 45 anos (contando desde a origem), sentiu o chamado para reunir a comunidade em oração.
Minha mãe plantou essa semente com amor e dedicação durante os primeiros cinco anos do grupo. Com o tempo, essa missão, como um bastão sagrado, passou para as mãos de sua cunhada, minha tia Nazira, irmã do meu pai. Essa união entre minha mãe e minha tia simboliza a força da linhagem Abrão, onde a fé e a união familiar sempre caminharam de mãos dadas.
Nazira Abrão: Uma Liderança de Fé e Perseverança
Quando tia Nazira assumiu a frente do setor, ela o fez com uma entrega absoluta. Naquele ano de 2009, quando realizei esta entrevista, ela já conduzia o grupo com maestria por mais de 23 anos ininterruptos. Sob o comando dela, o compromisso das segundas-feiras tornou-se inabalável.
Aquelas reuniões eram muito mais do que encontros religiosos; eram momentos de resistência espiritual. Tia Nazira e suas companheiras de oração não se reuniam apenas para passar as contas do terço; elas mergulhavam nas necessidades do mundo, tomando conhecimento das campanhas da Quaresma e do Natal, integrando as preces às carências mais urgentes da nossa gente.
Fé com Pés no Chão: A Voz da Cidadania e do Dever
O que sempre me inspirou na tia Nazira foi a sua capacidade de transformar a fé em consciência social e ética. Durante a Campanha da Fraternidade de 2009, sobre “Segurança Pública”, ela nos deu uma das lições mais lúcidas que já registrei:
“O Governo não é nada sem nós. Se queremos um país melhor, temos que começar por nós mesmos. A mudança deve iniciar dentro do seu próprio lar, com seus filhos e funcionários, colocando sempre seus deveres e direitos — porque ninguém tem só direitos, eles vêm através do cumprimento dos deveres.”
Para ela, a Ave-Maria dita no terço só tinha valor se fosse acompanhada pela retidão de caráter fora dele. Ela pregava a revolução do exemplo, ensinando que a paz de uma nação começa na mesa da cozinha e no respeito ao próximo.
O Bingo da Solidariedade: Caridade que Alimenta
A espiritualidade da tia Nazira tinha mãos estendidas. Após o terço, realizava-se o “Bingo da Solidariedade”. Com prendas doadas pelas próprias participantes e o valor simbólico de apenas R$ 1,00, elas faziam milagres.
Toda a renda arrecadada era rigorosamente destinada a famílias de baixa renda de Catalão. A oração se materializava em cestas básicas, medicamentos e até colchões. Tia Nazira provava, semana após semana, que a solidariedade é a capacidade de sentir a dor do outro e agir efetivamente para aliviá-la.
Um Adeus que se Fez Eternidade
Naquela tarde de 2009, registrei também a presença de sua filha, Marise de Castro, que acompanhava a mãe com um olhar de pura admiração. Marise definiu aqueles momentos como “memoráveis”. E realmente foram.
No dia 17 de novembro de 2018, o coro das Ave-Marias em nossa cidade ficou mais silencioso. Tia Nazira partiu, deixando um vazio imenso, mas sua partida não foi um fim; foi a consagração de um legado iniciado por minha mãe e sustentado por ela com tanto vigor.
Tia Nazira partiu, mas as sementes que ela e minha mãe plantaram continuam a florescer. Este resgate histórico é o meu tributo a essas mulheres inesquecíveis. Que o “Eco das Ave-Marias” continue a nos inspirar a sermos seres humanos de uma caridade infinita.
Um Espaço para Relembrar
Muitas pessoas em Catalão foram tocadas pela liderança de tia Nazira e pela semente plantada por minha mãe, Édima Abrão.
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Você participou desses momentos no Setor Central?
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Tem alguma história de caridade ou algum conselho que marcou sua vida?
Deixe seu comentário abaixo. Vamos celebrar juntas a memória dessas mulheres que dignificaram nossa fé e nossa família.




TEXTO e FOTOS: Maysa Abrão
