O GRÃO DE AREIA que o tempo não levou por Amin Safatle

Naquele tempo, na metade do século XX, o mundo ardia em guerra. O Brasil ensaiava os primeiros passos para se tornar uma nação de maior importância, enquanto Catalão permanecia pequena, pacata e quase provinciana, onde o tempo parecia caminhar mais devagar e a vida seguia o ritmo das estações, das missas e do apito do trem.

A rua era de terra, macia como um abraço antigo. O sol caía devagar sobre os telhados baixos, e a poeira dançava no ar como se fosse ouro leve, suspenso no fim de tarde.

A gente andava descalço

 – não por falta, mas por liberdade.

Cada passo era um encontro com o chão, cada grão de areis uma presença viva, quase uma companhia silenciosa.

Com um graveto na mão, se desenhava mundos. Estradas que não levavam a lugar nenhum – e, ainda assim, levavam a tudo. Casas que cabiam num risco. Sonhos que cabiam na palma da mão.

Não havia pressa. O tempo não corria – escorria. Como areia entre os dedos de um menino que ainda não sabia que um dia sentiria saudades.

As vozes vinham das portas abertas, chamando para o café. O cheiro da terra quente se misturava ao da vida simples. E o dia se recolhia sem alarde, como quem sabe que voltará amanhã.

Depois vieram as mudanças. Cobriram o chão, Domaram a poeira. Apressaram os passos.

Mas o que ninguém percebeu é que o grão de areia não desapareceu.

Ele ficou guardado.

Ficou nas dobras da memória, nos cantos esquecidos da alma, no silêncio de quem, de vez em quando, fecha os olhos e volta a pisar descalço na própria infância.

Hoje, quando caminho sobre o asfalto, sinto falta do que não suja mais os pés – mas também não toca o coração.

E então entendo, com a calma que só o tempo ensina: há coisas que o progresso cobre, mas não leva.

Porque um grão de areia, quando cai na infância, nunca mais sai da vida

Amin Safatle 01/8/2026